sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Versos Íntimos - Augusto dos Anjos




Esse poema (meu favorito) do escritor paraibano Augusto dos Anjos, o pai do movimento simbolista no Brasil, não é exatamente o mais conhecido da história, mas é um dos preferidos dos professores de literatura Brasil a fora. Possivelmente o leitor já deve ter se deparado com ele em algum livro, apostila ou prova.

VERSOS ÍNTIMOS

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te a lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera

Toma um fósforo, acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga
Apedreja essa mão vil que te afaga.
Escarra nessa boca de que beija!

Augusto dos Anjos

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Sexo é um Caso Sério


Pensai no casal mais belo, mais encantador, 
como ele se atrai e se repele, 
se deseja e foge um do outro com graça num belo jogo de amor. 
Chega o instante da volúpia, e toda a brincadeira, 
toda a alegria graciosa e doce de súbito desapareceram. 
Porquê? Porque a volúpia é bestial, e a bestialidade não ri. 
As forças da natureza agem por toda a parte seriamente. 
A volúpia dos sentidos é o oposto do entusiasmo que nos abre o mundo ideal. 
O entusiasmo e a volúpia são graves e não comportam a brincadeira. 

Arthur Schopenhauer, in 'Metafísica do Amor'

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Linda poesia de Augusto dos Anjos

A lágrima 

- Faça-me o obséquio de trazer reunidos 
Cloreto de sódio, água e albumina... 
Ah! Basta isto, porque isto é que origina 
A lágrima de todos os vencidos! 

-"A farmacologia e a medicina 
Com a relatividade dos sentidos 
Desconhecem os mil desconhecidos 
Segredos dessa secreção divina" 

- O farmacêutico me obtemperou. - 
Vem-me então à lembrança o pai Yoyô 
Na ânsia física da última eficácia... 

E logo a lágrima em meus olhos cai. 
Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai 
Do que todas as drogas da farmácia! 
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In "Augusto dos Anjos: Poesia e Prosa", de Zenir 
Campos Reis, Ed. Ática, São Paulo, 1977.